terça-feira, 11 de outubro de 2011

Lua Cheia (Parte Final)

Um monstro ferido não foge para muito longe e nem é muito cuidadoso em cobrir os rastros. Os caçadores inexperientes consideram isso a vantagem decisiva para matar um alvo, mas se esquecem do detalhe mais importante: um monstro ferido é um monstro furioso.

Arco e flecha em mãos, apontados para baixo. Olhos focados em cada detalhe minimalista por entre cada galho. Ouvidos bem abertos, diferenciando cada som ao meu redor, para me alertar ao primeiro sinal de ameaça. Eu não estava caçando um animal qualquer e nem estava atrás da minha janta. Eu caçava um lobisomem dos grandes e para garantir que mais vidas não fossem perdidas.

Primeiro foram porcos e bois sumindo – alguns dos restos foram encontrados e suspeitaram que uma família faminta houvesse roubado os bichos. Depois, um homem foi encontrado sem a barriga e nem o tórax e alguns ficaram preocupados. Daí, outro homem em outro vilarejo e mais dois em outro, e um casal em uma cidade pequena, até que uma família inteira foi encontrada devorada e, finalmente, um bendito alarme geral.

Famílias horrorizadas.

Lobisomens costumam fazer sujeira mesmo. Seis homens, duas mulheres e uma criança foram encontrados até aquele momento – na verdade, apenas algumas partes de cada um. Os três vilarejos e a cidade promoveram uma assembléia, juntaram o pouco de prata e cobre que possuíam e contrataram um especialista – eu.

Tenho motivos pessoais para caçar esse tipo de monstro, mas isso não estava em questão naquele momento. O que importava era: eu nunca desconfiaria da elfa do bosque. Investiguei mais de uma dezena de famílias procurando o bicho e cada vez mais pessoas morriam. Procurei em cada canto da pequena floresta próxima aos vilarejos e não achei nada ameaçador, nem sequer goblins. Depois de um tempo, fui obrigado a desconfiar da tal druida. Eu sei que esse tipo de gente se transforma em animais de vez em quando e que possuem um elo forte com a natureza, mas em forma de dom e não de maldição. Talvez a velha tenha tentado se superar e se viciou em ser animal, ou talvez seja um destino maldito para todos os druidas que o resto do mundo não tenha descoberto ainda, ou ela enfrentou um outro lobisomem alguma vez e nunca revelou para ninguém que havia sido contaminada, ou qualquer coisa, isso também não importava. A elfa velha estava matando pessoas e precisava ser abatida.

Por sorte ou por azar, a neta do monstro apareceu justo no dia do abate. Eu sabia que não seria um trabalho limpo, é impossível se aproximar de uma druida sem ser notado, ela se transformaria por instinto de sobrevivência e eu teria encrenca de qualquer forma. O problema foi: como fazer isso com a neta por perto? De certa forma, isso me deu tempo de observar uma ultima vez e confirmar minhas suspeitas. A besta despertou, a menina teve que fugir, foi perseguida e eu fui atrás. Meu plano era dar uma única flechada e matar num golpe só, mas isso exigiria concentração e o momento não permitiu. Por vezes tentei parar e preparar o tiro, mas era simplesmente impossível. Quando vi que a menina iria morrer, deixei o plano de lado e salvei a vida dela. O monstro fugiu, obviamente, e agora sabe que tem alguém atrás dele, mas, menina está – e continuará – viva.

Um novo plano teve que ser traçado. O lobisomem não podia passar daquela noite e eu não iria arriscar ter um vilarejo inteiro chacinado num único surto de fúria. Outro caçador não seria encontrado a tempo caso eu falhasse e todos seriam obrigados a fugir ou morrer. Talvez aquele tenha sido o trabalho mais sério de minha carreira.

E lá estava eu, seguindo os passos do monstro. Não foi difícil encontrá-lo. Tinha o dobro do tamanho de uma pessoa, corpo musculoso e peludo, focinho e orelhas lupinas, vestido ridiculamente apertado ao corpo e uma coroa de flores que pertenceram ao que um dia foi uma druida. As três flechas ainda estavam lá, nas costas e numa das patas, profundas, mas não mortais. Ele já havia me percebido e estava com as orelhas eretas, esperando alguma reação minha. Ergui os braços, estiquei a flecha, apontei para o monstro e respirei. Mirei na cabeça dele e pisei, propositalmente, num galho. Ele pulou para o meio do mato e sumiu do meu campo de visão, alarmado com o estalo provocado, imaginando que era algum descuido meu. A boa notícia era que eu não desperdiçara uma flecha à toa. A má era que ele viria para me atacar por qualquer lado.

Andei até o ponto onde ele estava, fechei os olhos e deixei meus ouvidos me guiarem. O som de mato sendo pisoteado ao longe era mínimo, mas era possível perceber que ele estava me circulando pela direita e iria me atacar. Permaneci imóvel, para não avisá-lo que eu sabia por qual lado ele viria. Os sons permaneceram dando a volta, foram se aproximando e cessaram.

Confesso que quase fique desesperado. O lobisomem poderia me matar num único golpe e, se eu não o ouvisse, esse golpe poderia ser o próximo. E o mero frio no umbigo de não estar ouvindo a minha caça já era o bastante para limitar todos os meus sentidos. Respirei fundo, limpei minha mente e deixei o meu ouvido trabalhar.

Ouvi sons de movimento entre as folhas, virei e soltei a flecha que zuniu e cravou numa árvore. Pisquei, entendendo o que havia acontecido e ele veio. O monstro pulou na minha direção com as duas garras esticadas e a bocarra aberta e faminta. Pulei para a esquerda, rolei no chão, puxei outra flecha e mirei, mas ele havia sumido de novo. O lobisomem era muito mais inteligente do que eu esperava, havia reparado na minha estratégia de provocar um barulho como alarme falso e usado contra mim mesmo! Aquilo era imensamente preocupante!

- Vamos lá, bichinho felpudo, eu não tenho a noite toda! Só me restam duas flechas com ponta de prata, não vai me fazer desperdiçá-las, não é?

Estiquei minha penúltima flecha especial na linha do arco. Olhei ao me redor e nada. Fechei os meus olhos, cessei a respiração e ouvi o silêncio. O monstro estava ficando bom em se esgueirar sem ser ouvido. Esperei um instante e percebi uma mínima vibração vindo por trás. Deixei que a vibração se aproximasse, ouvi folhas se mexendo bruscamente e me deixei cair no chão, girando em meia volta. Abri meus olhos no ar e vi o lobisomem por cima de mim, passando direto numa tentativa falha de ataque. Soltei a flecha e acertei a coxa de uma das patas traseiras. Ele grunhiu em dor, eu tombei de costas e girei, preparando a ultima flecha e soltando para o ultimo tiro. A ferida na perna não o permitiria reflexos para fugir e eu não poderia deixar a chance passar – mas, infelizmente, deixei.

Soltei a flecha, mas ele se esquivou numa agilidade surpreendente. Olhou a flecha cravar num tronco, pôs-se a rosnar como nunca e me encarou com a certeza de que iria me matar. Levantei-me e corri. Ele uivou e me perseguiu. Usei todo o fôlego que ainda possuía. Se não fosse a flecha na coxa, ele teria me alcançado em segundos. Passei por dezenas de árvores e simplesmente não me importei com a distância que percorreria, pois sabia que meus rastros seriam seguidos. Depois de alguns momentos, percebi que o monstro não estava mais atrás de mim e me encostei numa árvore, pegando ar e protegendo as costas de qualquer ataque surpresa. Minha aljava estava vazia e um monstro estava preparando um bote por algum lado. Enquanto respirava, levantei meu tornozelo e tirei uma flecha da minha bota - as flechas com ponta de prata de minha aljava haviam se esgotado, mas eu tinha uma última escondida. O monstro deveria ter total confiança de que eu estava indefeso e esse seria o meu trunfo.

Fechei os olhos.

Controlei a minha respiração, deixei meu coração desacelerar e me concentrei.

Nada pela frente... Nada pela direita... Nada pela esquerda... Uma vibração na árvore vindo por cima.

Num susto, olhei para o alto e o lobisomem estava de ponta-cabeça, pendurado na árvore, salivando e pronto para saltar.

- Filho da puta! – gritei e me joguei em cambalhota para frente, rolei pelo chão, me ajoelhei, estiquei a flecha, soltei e acertei no tronco.

Impossível! Simplesmente impossível! Além de o monstro ter escalado a árvore, ele havia sumido antes que eu atirasse a flecha! Impossível!

Enquanto praguejava comigo mesmo por ter errado o ultimo tiro, senti um soco nas costas. Fui jogado na terra e afundado contra o solo. A garra segurou minha cota de malha, ergueu meu corpo e socou contra o chão de novo, me esmagando com o imenso punho. E, então, me ergueu novamente e me arremessou bruscamente contra a árvore onde a flecha estava encravada. O impacto partiu a flecha e me espatifou contra o tronco. Cai de cabeça e de ombro no chão e tombei para o lado. Antes que eu recobrasse os sentidos, a mão voltou a me esmagar, dessa vez, imprensando meu peito contra o chão. Abri os olhos sentindo minha cabeça latejar e meus braços e pernas moles de dor. O hálito quente e podre do monstro impregnava o ar e seus olhos amarelos brilhavam em ódio – não era fúria, como eu imaginara antes, era bem pior do que isso: raiva inteligente e calculada.

Lentamente, ele me levantou do chão e me apertou contra a árvore. Olhou fixamente nos meus olhos e ergueu a pata esquerda para trás, anunciando minha morte. A mãozorra mantinha o formato humanóide, mas com a almofada cinzenta na palma e garras grossas e afiadas como navalhas brilhando à luz da lua. O lobisomem me permitiu ver sua arma natural reluzir antes que eu morresse, mas, também me permitiu ver a adaga de prata que eu havia entregado à elfa surgindo por trás dele e abrindo fundo a sua garganta.

Foi um único movimento. Ele estava distraído comigo, ela veio, encaixou a lâmina na traquéia do monstro e afundou com força, fazendo o sangue jorrar generosamente. O lobisomem soltou um meio uivo que foi interrompido no engasgo de sangue e me soltou, caindo no chão em convulsões doloridas.

Respirei aliviado. Cheguei a cogitar de que a menina havia desistido do plano de atacar o monstro pelas costas enquanto eu o distraía, porquê, afinal, aquilo havia sido a avó dela. Felizmente, estava enganado. Ao contrário do que eu cogitara, ela não só abriu a garganta do monstro, como o esfaqueou enquanto ele morria.

Aquilo sim era fúria. Ela estava descontrolada, irracional, gritando e chorando enquanto terminava de tirar a vida da coisa. A cada facada, uma esborrifada rubra. A cada facada, uma lágrima. Uma hora, ela cansou, largou a adaga de prata no chão e ficou soluçando alto, em convulsões tão bruscas quanto as da besta. Seu rosto estava repleto de sangue. Suas mãos tremiam e pingavam em rubro. Sua roupa, que era toda branca, ficara completamente vermelha. Uma cena triste.

Ela me olhou, entre os soluços:

- E agora? ... O que eu faço?

Eu recolhi a adaga e pensei a respeito da pergunta. A avó dela já estava morta antes de matarmos o monstro e ela sabia disso. Mas, era impossível separar as coisas. Doía ter matado o lobisomem. Doía ter salvo tanta gente. Um trabalho realmente ingrato. Mas, um trabalho feito. Não havia retorno. Nunca houve sequer oportunidade retorno. Ela sabia disso, mas precisava ouvir.

Girei a pequena lâmina de prata em minha mão, vendo a lua cheia refletidas entre as manchas de sangue:

- E agora, é caçar... Ou caçar.

E estendi a adaga para ela.

2 comentários:

  1. Fuck yeah ! Trabalhos concluídos pra nós cancerianos tem um gosto todo especial né velho hehe ! muito bom, gostei muito ! não sou muito fã de violência gratuita mas de alguma forma, você é visceral de forma artística, e isso eu admiro.

    faria os desenhos dos personagens se tivesse tempo, eles estão dançando na minha cabeça ! parabens !

    ResponderExcluir
  2. Paulinha Marcondes5 de novembro de 2011 16:30

    Adorei.
    Sabe aquela leitura que te faz viver os personagens, te levam longe na mente? Pois então Lua Cheia fez isso comigo e portanto devo classificar como magnifico.
    Parabéns *-*

    ResponderExcluir